Política linguística e identidade nacional em Angola – João Pinto


joao-pintoAo comemorar-se oitocentos anos da Língua Oficial de Angola, sentimo-nos universalizados pela
história da Língua que os Portugueses impuseram com violência e acolhida como enteada pelos nossos antepassados, pelos ritos religiosos e ofícios do Estado.

No entanto, os angolanos ou angolenses (Matta, Pereira, Oliveira e Andrade) sempre tiveram línguas maternas que aprenderam das suas mães e avoengos (akulo, bakulo, vakulo) e tais línguas endógenas enriqueceram o vocabulário da língua do   muene puto, kaputu ou homem branco, com expressões de matriz africana, segundo Cadornega e Mingas.

As línguas geram quase sempre confusão, conflitos ou mal-entendidos quando não há prudência. Os grandes pensadores como Platão, Aristóteles e Rousseau, dissertaram todos, no sentido das mesmas diferenciarem os homens dos animais.

«A fala distingue o homem dos outros animais assim como as línguas distinguem as nações entre si.» (Rosseau, 1753)

Por isso, os angolenses falam angolês no seu dia-a-dia, falam diferentemente do tuga ou kaputu, do brasilês, com buê de mambos ou mujimbos que só quem é da banda entende, para tal  a influência do pirão ou funji com calulu, ginginga, lombí, fumbua, mahini, matamba, muteta escutando ngoma, kisanji, puita ou marimbas do kamundongo. Com exclamações como «avoiô, xê, aka, ainda me deixa mana»!…

Meus kambas muangolês, devemos mujimbar com nossas makas ou mambos, para tchilarmos à nossa maneira, não cuia ao muangolê seguir toda banga dos tugas, até por sermos a maioria devíamos banzelar nos mambos e escrevinhar ou fazer mukanda com nossos mujimbos. Nisto, Cordeiro da Matta, Neto, Pepetela, Uanhenga Xitu, Mário Pinto de Andrade, John Bella,   Agualusa, Xico Adão, Viriato da Cruz, Boaventura Cardoso, Ruy Monteiro, Timóteo Ulika, Ondjaki e outros têm ajudado na literatura ou mujimbo.

O encanto musicado pelos artistas como Liceu Vieira Dias, Fontes Pereira (Malé Malamba), Ruy Mingas, Bonga, Carlos Burity, Belita Palma, Loudes Van-Dúnem, Lina Alexandre, Afro Men,  Gingas, Yuri da Cunha, Matias Damásio, Justino Andanga, Bela Chikola, Pedrito do Biê, Puto Português que devia ser Kandenge mangolé, Mito Gaspar, Man Ré e Socorro. Todos eles têm sucessos canatndo bem em angolês ou buscando a herança das línguas africanas.

Para o sekulo Tchipilica que fala como se tivesse engolido sete tugas e parece até não falar Umbundo, quando fala de forma impecável, pode parecer blasfémia cultural, pois tal “miscigenação” pode perigar a língua vernácula, mas devemos ousar difundir compreender o povo, embora o código da escrita seja mais exigente ou formal, defendo que devemos assumir a forma comum e manter o erudito para fins intelectuais ou académicos.

Vejam só, uma muangolê na tuga com finúrias lusitanas até lhe fazem pouco, ninguém lhe liga! Dizem quem é este “palhaço”? Se for no Wambu, no Viê, Mbalundu, Lunda, Ndongo-Ngola , dizem_ uatunda pi? uatundo kuebi?  Quem é este ou qual é a sua identidade? Os sekulos, makotas ou anciãos respeitáveis diriam na Lunda é um mukua kuisa ou katchindele no Planalto e mundele ua diala ou pula de Luanda à Malanje, os mabaquistas são terríveis, quase que atentam contra a língua do Camões que escrevinhou o Muene Kongo.

Os kotas assimilados, foram de kaxexe introduzindo as nossas tradições de fala e estar e sentir na língua do tuga, por via das tradições do Kongo, Lunda, Ngola, Mbalundu, Viê e Kwanhama, mas os que vão amarrar na tuga, esquecem já os mujimbos ou makas da banda e dizem: «narrativas, notícias ou factos», não seja zongola da sua cultura, é ofensa aos kazumbi dos séculos e kotas que estão no mbalale… Manguxi fica triste; Ekuikui envergonhado; Nginga, xinguila; Mandume tranca a cara e Lukeny, diz: « já não estava lá quando chegaram», Lweji, diz que não tem culpa, mas cabe ao Nzinga Nkuvo que se baptizou e mudou de nome africano konguês para D. João e seu filho para D. Afosnso! Nginga, diria: « eu lutei até com meu irmão Ngola Mbande, conflituoso e teimoso, baptizei-me, só de kaxexe para lhes conhecer os hábitos ou como se diz em Ngola que chamam Kimbundo ou grande negro: “tunga nê umuigie kifua kiê” ou conviva com ele para que conheças os hábitos»…

Se os brasileiros falam brasilês, com vocábulos de origem africana (kikongo e kimbundu) levado pelos escravos deste território, agora dizem Zumbí, Bunda, Caçula, kalundú; os franceses falam francês e os ingleses falam inglês; os muangolês falam angolês e o Português fala-se em Portugal, mas nós temo-la só no papel, na prática, da cidade e do mato entre camaradas, manas, companheiros ou irmãos falamos sempre angolês, com garinas ou kalumba, com kotas ou séculos, com nguvulus ou cabola, falamos angolês…

Meus caros concidadãos, ai está o exemplo de como pela literatura que melhor retrata o estar e sentir de um povo, nos diferenciamos de outros falantes da Língua Oficial de Angola, concretizando o desiderato de haver necessidade de promoção do património cultural angolano, por via da evolução lexicológica (neologismos, estrangeirismos), onomástica (origem dos nomes) para que a herança da História Angolana endógena não seja excluída pelo património cultural de origem exógeno. Devemos ser nós mesmos, segundo Neto. Devemos não ter complexos sobre a nossa identidade, mas todas línguas modernas foram influenciadas pelas línguas clássicas que influenciaram as ciências.

A Constituição ao consagrar no artigo 19.º, o conceito de «línguas de Angola», foi uma opção jus política para incluir a herança exógena com a endógena, mas nunca ignorar a simbiose sociocultural, nunca querer utilizar as diferenças para fragilizar ou minar a cidadania, pois, se assim não fosse, a expressão «línguas nacionais», implicaria diminuir ou excluir a cidadania de quem não dominasse uma língua de matriz africana ou endógena, violando deste modo os princípios da universalidade e igualdade entre cidadãos, previstos nos artigos 22.º e 23.º da CRA. Trata-se de um património nacional que devemos proteger, segundo o artigo 87.º da CRA.

Importa que os cidadãos não sejam discriminados por falarem uma língua que não seja a Língua Oficial, por isso, obriga-nos aprovar um diploma que proteja o património linguístico nacional, para facilitar a coexistência linguística, inclusão sociocultural para quem não domine a língua de trabalho, criando-se condições humanas e materiais para que as línguas mais faladas localmente não sejam excluídas nos serviços públicos, como educação, registo civil, justiça e saúde…

No entanto, devemos acautelar que certas expressões que sociologicamente são correctas, podem não coincidir com o formalismo jurídico, é o caso de “línguas nacionais” que são o exemplo acabados poder ser correcto sociologicamente, mas jus politicamente levanta a seguinte questão: quem não fala uma língua “nacional” pertence à referida nação?

Parece-me que estas questões devem ser acauteladas evitando a discriminação negativa, bem como a utilização abusiva das línguas angolanas de matriz africanas para promover a xenofobia, etnofobia ou medo do estrangeiro ou de quem é de uma etnia diferente, criando mal-estar entre concidadãos. É racismo indirecto. Mas devemos assumir a nossa matriz do Angolês falado pelos muangolês, (como fizeram os brasileiros com o Acordo Ortográfico) falado pela maioria e a língua formal ou oficial que é utilizada na burocracia…

As autarquias vão exigir da classe dirigente o desafio dos mesmos sobre a identidade cultural endógena, pois o facto de serem resultado da autonomia local ou devolução de poderes criadas pelo Estado por razões de vizinhanças, criando uma nova pessoa jurídica de população e dotadas de autonomia administrativa (criar regulamentos específicos ou circunscritos à autarquia), património próprio (impostos específico, terras de domínio privado e outros bens), legitimados (democracia representativa e participativa) pelas populações locais. Isto exigirá um grande esforço público em matéria de política linguística para evitar-se a discriminação…

Fonte: Club-k

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