A PAZ NA VISÃO DOS NOVOS POLITÓLOGOS: NOVA GAZETA


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Grande parte nem sequer era adolescente, quando o país alcançou a paz definitiva em Abril de 2002. Mas não hesita em vincar o seu parecer. Os politólogos em formação na maior universidade do país realçam o positivo e o negativo da paz que chegou há 13 anos, respondendo a um desafio do NG. Numa sexta-feira, à tarde, a sala 332 da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade ‘Agostinho Neto’ registou uma aula diferente da prevista no horário. Durante uma hora, mais de 30 estudantes de Ciência Política disseram ‘sim’ ao desafio do Nova Gazeta (NG): falar/debater sobre os 13 anos de paz em Angola. O professor, com um simples “prefiro não fazer parte do debate”, limitou-se a assistir. Quem não quis apenas assistir foi Sebastião Ndombaxi, de 28 anos, natural do Uíge. “Na arena internacional, Angola tem-se afirmado como uma referência, mas internamente o Estado não tem sido equitativo. Há muitas assimetrias regionais. As províncias do litoral andam mais desenvolvidas do que as do Norte”, analisa o estudante do 4.º ano de Ciência Política, que, apesar de ter saído do Uíge para Luanda em 1996, garante não ter traumas da guerra. “Tinha apenas sete anos”, justifica. Também estudante do 4.º ano, António Mateus, de 24 anos, entende que a seguir aos acordos de paz de 2002, o Estado “preocupou-se apenas com as infra-estruturas”, relegando para o “segundo plano” o “mais importante”, que se resume em “trabalhar o homem”. De acordo com este estudante, natural do Bengo, outro “erro cometido pelo Estado foi o de privilegiar a terceira fase da economia – produção de bens e serviços –, esquecendo-se de pegar no primário”, que seria o desenvolvimento da agricultura e da indústria. “O Estado errou. Começou logo a investir em bancos, em escritórios e esqueceu-se do camponês, que é a entidade que trabalha e, depois, surge a indústria que transforma os produtos, dando origem a bens e serviços”. Mulher ‘sem força’ Entre os mais de 30 estudantes na sala, havia apenas duas jovens. Mas apenas uma interveio na aula: Clementina Satuala, que tinha apenas oito anos quando se assinaram os acordos de paz. Antes de dizer o que pensava sobre a paz, a estudante, que frequenta o 3.º ano, tentou ler um excerto do Artigo 21.º da Constituição sobre os direitos fundamentais do Estado. Mas não passou da tentativa. Foi interrompida por Osvaldo Isata, de 28 anos, que desatou aos berros. “No nível em que estás, não precisas de recorrer a um livro para fazer uma análise tão simples com esta”, considerou o estudante que, apesar de ser caloiro, acusou a Clementina Satula de ter “pouca bagagem”. A turma mergulhou em clima de tensão. Um estudante, que se preparava para abandonar a sala, murmurou: “Esta não é atitude universitária”. O delegado e inclusive o professor tiveram de intervir. Dos 30 que tinham começado o debate, mais de metade preferiu abandonar a sala. Acalmados os ânimos, Clementina Satula não voltou a opinar, alegando ter perdido o ‘fio lógico’. “A paz também é uma questão psicológica. O colega não tem paz, por isso interrompeu-me”, lamentou a estudante.

O ‘Hitler’

Quando se pensava que a aula tinha acabado, a sala, já sem a ‘enchente’ dos primeiros instantes, chamava por Hitler. Mas não era o ditador fascista alemão. Hitler Tshikonde é, na verdade, o nome do delegado de turma. Natural do Moxico, aos 24 anos, este estudante gaba-se de ter nascido na província “onde começou e terminou a guerra”. O pai deu-lhe esse nome por ter estudado na Alemanha. O jovem Hitler entende que os “ganhos da paz” devem ser analisados de “forma fria”, uma vez que o crescimento económico registado por Angola “ainda não se traduz em desenvolvimento”. Para este estudante, “não se deve” falar de paz, “culpando um lado e encher de elogios pomposos o outro”. “Não se faz uma guerra sozinho. Somos todos culpados pela guerra e devemos todos lutar para construir a paz”. Hitler Tshikonde, no entanto, não se fica por aí. Considera que o país “recuou” na política porque a Assembleia Nacional foi reduzida a “uma caixa de ressonância”, embora aceite que o partido com maioria parlamentar foi eleito democraticamente. O jovem recorreu ao ‘ranking’ da ‘Freedom House’ que coloca Angola como “um país não livre”, por isso acredita que a paz que é uma “guerra silenciosa”. “Em 13 anos de paz, ainda se justifica que uma simples manifestação seja encarada como um sinónimo de guerra?”, questiona, alegando que, ao elaborar-se a Constituição, “não se tinha noção do peso do Direito à manifestação”.

Duplo festejo

Nilton Alfredo completou 13 anos a 22 de Fevereiro de 2002, data da morte em combate do fundador da UNITA, Jonas Savimbi. Recorda-se de, junto com os amigos, saltar de alegria com gritos de “agora, vamos viajar de Cabinda a Cunene; o quilo de arroz vai ser mais barato”. Mas actualmente, com 26 anos, anda desiludido porque, com a paz, “somente se calaram as armas”. “Falta o bem-estar social do povo. As políticas públicas beneficiam sempre a classe média e a alta”, lamenta, apelando a “maiores cuidados” porque a “pobreza causa revolta” e esta última pode remeter-nos ao “retrocesso”. “O desemprego e a pobreza constituem ameaças para o Estado e levam a guerras”, conclui o jovem que nasceu no dia em que praticamente terminou a guerra. FONTE:http://novagazeta.co.ao/?p=7792

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