Reacções na Faculdade de Ciências Sociais


 

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O facto de ter constado na lista de leitura os trabalhos de autores como Ricardo Soares de Oliveira e T. Burgis, respectivamente, Magnicente e Miserável: Angola desde Guerra Civil e A Pilhagem de África, levou certos estudantes do mestrado em ciência política e administração pública a dizer coisas do género:

“Este professor é um descontente. É do contra. Não leiam o Cap. 1 Futungo, SA. Leiam só os capítulos subsequentes, porque, o Cap.1 não passa de especulações”. De qualquer modo, foi surpreendente que mais de 90 percent dos estudantes que apresentaram ao teste oral, preferiram falar sobre o Cap. 1. Os restantes escolheram falar do trabalho de Eric Hobsbawn, centrando-se nas partes sobre “Perspectivas da Democracia”, “Difusão da Democracia” e “Ordem Pública numa era da violência” e outras optaram pelo Cap.2 sobre “Teorias Reducionistas” de K. N. Waltz.

Apesar do grande êxito do teste oral, o grande problema foi como levar os participantes a dissociarem a “crítica social” do “activismo” ou sensacionalismo jornalístico. Contra factos não há argumentos. Mas o argumento era atravês da dança dialêctiva, a maiêutica socrática, levar os/as participantes a descobrir as realidades escondidas na pilhagem. Sem pretender minimizar os malefícios da gestão danosa das “coisas-do-estado” que impera em Angola e gritante impunidade em face de improbidade crónica, o exercício consistia levar as/os participantes a ver-com-os-olhos-de-ver a outra face da moeda da pilhagem. Houve muita resistência em descobrir o mérito intelectual de se libertar das “caixas negras” de que fala o Elísio Macamo. No final, uns foram dizendo que da pilhagem nasceu o Kero, nasceu o Candando, nasceu a UNITEL, nasceu a MOVICEL, nasceu o Kilamba, Bancos Comerciais, enfim, tanto e tantas coisas que o estado não foi capaz de fazer, sobretudo, o emprego a tantos jovens nestes empreendimentos.

Então, a acumulação primitiva do capital ecoado pelos mais altos alofotes da nação é encorajada, num dado momento, para mitigar as muitas limitações do estado. É deveras sugestivo o apelo do PR Eduardo dos Santos no Discurso da Abertura da VII Congresso Ordinário do MPLA a 17 Agosto de 2016 – “Há que apoiar mais os empresários com provas dadas em eficácia e responsabilidade e cada vez mais comprometidos com o futuro do país. (…) Não devemos confundir estes com os supostos empresários que constituem ilicitamente as suas riquezas, recebendo comissões a troco de serviços que prestam ilegalmente a empresários estrangeiros desonestos ou com bens desviados ou roubados do Estado. Angolana não precisa destes falsos empresários, que só enfraquecem o país e contribuem para a sua dependência económica e política de círculos externos” (vide Discursos do Camarada Presidente José Eduardo dos Santos proferidos no VII Congresso Ordinário do MPLA). Esta parafrase é reveladora do antagonismo entre (a) “empresários com provas dadas em eficácia e responsabilidade e cada vez mais comprometidos com o futuro o país” e (b) “empresários que constituem ilicitamente as suas riquezas…com bens desviados ou roubados do Estado”. A grande questão é saber-se se a categoria (a) pertencem as entidades que Burgis fala como autores da pilhagem, nomeadamente, Kopelica, Manuel Vicente e Dino, ou se estas entidades, de facto, atirando por terra os argumentos de Burgis, ou se estas entidades em pleno exercício de suas funções públicas (ao menos, o primeiro e segundo) figuram na categoria (b) corroborando o argumento do jornalista britânico?

Outra linha de problematização seria ver que, na realidade, tanto o (a) quanto (b) se (co)fundem em virtude do pragmatismo da “acumulação primitiva do capital”.

Outra linha de argumentação seria, a própria “Reforma do Estado” um eixo central na Moção do Líder do MPLA. Basicamente, aqui radica uma oportunidade única de todas as forças políticas vivas nacionais questionarem – se valeria apena adiar as eleições de 2017, com vista a priorizar a agenda de reforma de estado, com novas regras de jogo, com uma maior participação de angolanas e angolanos – afinal que “Reforma do Estado” queremos? Qual é a melhor forma de governo para uma gestão eficiente e responsável do estado e suas instituições e recursos (tangíveis e intangíveis)?

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